
Eu e você,
não rima,
mas combina.
Acho que nunca te contei sobre os meus medos. Sinceramente eu nunca os contei pra ninguém… Mas cá entre nós, você é você, muito perspicaz e esperto, e de alguma forma maluca sempre conseguindo me decifrar deve ter captado algo. E eu sou… Eu. E com minha burrice crônica provavelmente devo ter deixado escapar alguma coisa ou deixando ficar subentendida outra. E eu nunca fui muito de falar, mas perto de você as palavras fluíam com tanta facilidade que às vezes me pegava tento que morder a língua pra não falar de mais e/ou tendo que pular de assunto, já que era mais seguro. Por que… Você sabe, quando a gente fala certas coisas em voz alta, coisas que só existem dentro de nós, elas se tornam assustadoramente verdadeiras. E eu me recusava, e ainda hoje me recuso, a admitir certas coisas… Até para mim. Como o fato de que não tenho muitos amigos porque não quero. Não sei se você chegou á perceber, mas eu sempre ergui muitos muros e situações á minha volta, para dificultar o caminho que leva á isso que eu chamo de coração. Pode achar maluquice, mas eu sempre dificultei o “acesso” á mim, coloquei barricadas de ignorância nas estradas e levantei muros de ironia á minha volta, apesar de não ser muito obvio, eu sempre afastei as pessoas de mim. Por quê? Essa pergunta vale um milhão de dólares, meu caro, mas como temos certa camaradagem, vou lhe dar a resposta de graça em nome dos nossos velhos tempos… É porque eu não gosto de ver ninguém partindo. Sim, é isso. Eu odeio despedidas, eu odeio sentir saudade, eu odeio sentir á falta que a pessoa faz na minha vida. Andar pelos cantos dessa merda fria e dura que eu chamo de coração e ver os buracos que ele ou ela deixou. Eu odeio ver alguém que eu demorei tanto tempo pra conseguir me apegar de verdade, partir. Porque eu sempre fui desconfiada e nunca me entreguei de verdade, e parece que é um complô porque apenas basta eu entregar os pedaços do meu coração remendado e feio na mão delas… Que logo logo elas se vão. Porque uma hora ou outra elas se vão. Não tem jeito, quando elas veem essa merda ambulante que eu me tornei por cauda da vida, elas se vão. E eu odeio tudo isso, e é por tudo isso que eu afasto elas, é mais fácil afastar alguém que você não sente nada, do que ver alguém que você ama partir. E eu deveria me sentir feliz ao vê-las ir, mas eu não sinto alívio, não sinto nada, eu apenas observo elas irem… Cansadas das minhas atitudes idiotas, aturdidas por conta das minhas palavras complicadas e irritadas com o fato de nunca conseguir realmente me entender. Por que… Cá entre nós ninguém me conhece muito bem e, quando o assunto sou eu, essa é uma das poucas verdades.Mas o engraçado é que bastou eu olhar para você e pronto. Eu te achei diferente. Eu vi potencial. E eu achei você diferente dos outros, poucas vezes na minha vida eu olho para alguém e crio expectativas assim, e por isso facilitei as coisas, porque eu queria você na minha vida, eu precisava de alguém assim, verdadeiro e leve, que finalmente derretesse esse gelo todo, porque eu sentia falta de conversas bobas sobre assuntos corriqueiros, sentia falta dos momentos de uma tarde de domingo vendo filme e comendo pipoca, risadas jogadas ao vento e momentos simples que ficam na memória por conta da sua leveza. Devo ser sincera, a primeira vez que te vi te achei estranho. Muito estranho. Mesmo. Porém um estranho bom e com uma diferença gritante de tudo que eu já vi. Eu gostei do que vi em ti, e por tanto gostar… Me assustei. Mas aos poucos, vendo uma coisa em comum aqui e outra ali, as coisas foram fluindo, caminhando sem tropeçar, fluindo sem afundar, e indo com tanta calma e de uma forma tão verdadeira que pela primeira vez não me vi querendo controlar tudo como uma escritora, digitando á cena como bem entende. As nossas conversas eram tão boas e calmas, e tranquilas e verdadeiras, que eu me via esquecendo de todo o resto, como os meus problemas em casa ou o fato de que estava totalmente ferrada em quase todas as matérias no colégio. E a gente se entendia, e aos poucos você foi ultrapassando tudo, e sem perceber sem querer você se tornou uma das pessoas mais especiais da minha vida. Era como se você fosse um dos pilares que me sustentavam… E mesmo sendo tão diferente a gente, de alguma forma, se encaixava e completava. Era fácil estar com você e eu me sentia verdadeira, uma pessoa boa e que valia a pena. E eu nunca te disse, mas… Parabéns! Parabéns porque você tinha conseguido derrubar uma por uma das barreiras que eu ergui. Tirando do caminho as barricadas. Derretido todo aquele gelo. E pela primeira vez eu pensei que realmente eu valia a pena. Porque você sem perceber me mostrou que eu não era uma pessoa tão ruim assim, que minha companhia era boa e minhas conversas até que eram agradáveis. E eu nem precisei falar muito sobre mim, você parecia conseguir ler minhas intenções e decifrar tudo o que eu falava, e eu não cheguei a falar muito sobre esse meu lado mórbido ou comentar que tenho autoestima baixa, você percebeu e me ajudou a superar isso tudo e muito mais.
Mas acredite; se eu não me mostrei toda para você não foi por achar que você não me entenderia, como a maioria das pessoas, e sim porque eu… Eu não queria que você fosse embora também. Porque eu sabia que assim que você me enxergasse 100%, visse realmente o tamanho disso tudo, você veria que eu sou um caso perdido e viraria a primeira esquina, me deixando aqui nessa encruzilhada. E também porque eu finalmente comecei a confiar em alguém e, sinceramente, me assustava pensar no buraco que você deixaria na minha vida caso fosse embora. Mas convenhamos que não adiantou muito te poupar dos meus demônios interiores, já que de um jeito ou de outro você foi embora. Foi embora por conta de uma situação que eu diria que no mínimo, foi idiota e desnecessária.
Mas por ser idiota e desnecessária, eu não diria que foi menos dolorosa e incomoda. Eu agi como criança e me recusava a admitir que aquilo tudo estivesse me machucando. E você agiu, infelizmente, da forma prática que eu esperava que você agisse, como se nada estivesse acontecendo. E eu pela primeira vez fiquei torcendo para você perceber o que estava acontecendo. Pela primeira vez eu queria que você visse a dor e confusão nos meus olhos, mas você não viu e eu pensei que devia ser porque você estava meio ocupada nesses dias. E eu deixei pra lá, ou melhor, tentei, e disse para mim mesma que agiria normalmente como se nada estivesse acontecendo porque nada estava acontecendo. Mas meus olhos traíam minha despreocupação forçada e muito perceberam, e eu entrei em desespero. Por que… Bom, eu sempre fui muito boa em esconder o que sentia e cá entre nós tenho certos dotes de atriz, e aparentemente não estava funcionando. Isso tudo estava me sufocando e eu comecei a agir como uma idiota, eu não consegui me controlar, só me restou à opção de me afastar de todos. Afastar-me principalmente de ti, pois não queria ferir ninguém, não queria te ferir. E quando dei por mim, tinha reerguido todas aquelas muralhas, eu tinha recolocado todas as barreiras e barricadas, novamente estava isolada do mundo como uma ilha, e eu pensei cá com meus demônios interiores que assim era melhor e que eu ia ficar bem, mas eu tive que admitir que eles estavam certos, eu fui muito idiota, devia ter ouvido eles e sempre ter me mantido afastada, numa distância confortável de tudo e todos.
Porém aos poucos eu comecei á ir percebendo a falta que você fazia e de vez em quando tropeçava e caia nos buracos que você deixou. E eu acho que pela primeira vez não soube o que fazer. Eu, a garota que gostava de dar uma de escritora da própria vida, escrevendo tudo ao seu gosto, e na medida do possível tornando tudo mais fácil para mim mesma, não sabia se colocava vírgula, ponto final ou reticências. Mas você sempre foi muito bom em português, ler era seu vício e escrever a sua paixão, com toda certeza não ia se importaria em me ajudar a decidir que pontuação utilizar. Então eu ignorei meus demônios interiores, que diziam que eu ia quebrar a cara novamente, engoli meu orgulho, e pisei em cima da minha intuição ao caminhar na sua direção. Bom, literalmente falando eu não fui à sua direção, mas sim tecnicamente dei o “primeiro passo“ e acho que mereço um desconto.
Quando você se sentou ao meu lado eu juro que não soube o que dizer. As palavras que eu tinha pensado que seriam fáceis de falar, para continuar ou acabar de uma vez essa situação, sumiram. Aparentemente meu discurso resolveu ficar na cama junto com a minha coragem nesse dia e eu só tinha a mim mesma. Eu olhei para você e não soube o que fazer, e percebi que algo tinha mudado, porque eu me sentia desconfortável e pela primeira vez eu não sabia o que te dizer. Eu só queria achar as palavras e dize-las sem me importar se elas eram as certas ou não. Como era antes, em que quase sempre eu podia falar tudo o que me vinha a mente sem me preocupar muito e era bom poder ser quem eu queria ser… EU mesma. E era fácil, assim como tudo era fácil quando eu estava com você. Mas naquele momento não era fácil e eu percebi a contra gosto que alguma coisa estava errada. Eu procurei um jeito de falar, mas eu não sabia o que dizer, e aparentemente aquele não era meu dia de sorte. Então eu simplesmente te passei a bola, porque eu me lembrei de que você também era bom em futebol, e rezei em pensamento para qualquer deus que estivesse me ouvindo que você conseguisse fazer um gol e a gente terminasse esse jogo logo de uma vez para irmos pra casa comemorarmos. Porque eu sabia, e alguma coisa ainda me sussurra aqui dentro, que isso era como um jogo e a gente ia conseguir vencer… Como um time que a gente era. Mas você aparentemente esqueceu que eu sou péssima em futebol, que prefiro vôlei, e tocou a bola pra mim… E eu não fiz o gol. Não me lembro se deixei a bola passar ou se a chutei na trave… Mas sinceramente isso não faz muita diferença agora. Você suspirou e disse que tinha algo para fazer, eu apenas concordei porque eu tinha um nó na minha garganta me impedindo de falar. Você se levantou e começou a caminhar lentamente e antes que você se afastasse totalmente, e fosse embora de vez, percebi que você virava um borrão, não porque eu estava sem óculos e sim por conta das minhas lágrimas. E eu não sabia por que estava chorando e continuo sem saber, e eu me recusei a pensar de mais e apenas chorei. Chorei para ver se as lágrimas conseguiam tirar esse gosto amargo da minha boca, arrancassem esse nó da minha garganta e quem sabe de quebra afogassem essa raiva, amargura e tristeza que estavam se alojando no meu coração. As lágrimas escorriam pelo meu rosto e essa foi a ultima vez que eu te vi.
A cada dia desde aquele momento eu senti sua falta, desde em coisas pequenas como compartilhar um filme legal quanto jogar conversas bobas fora. Era difícil ter que lidar com a saudade e viver tropeçando nos malditos buracos que você deixou, enquanto ouvia a todos que sabiam desse incidente e que acreditavam ser meus amigos dizerem que eu fui burra, idiota. E me irritava ainda mais quando falavam sem parar que eles avisaram, e entre conversas, falarem mal de você. Eu achava engraçado o fato deles pensarem serem meus amigos, eles nunca foram e nem serão… Amigo de verdade só você. Quanto a ser burra, idiota e derivados… Disso eu já sabia, embora preferisse que eles não tivessem fala em voz alta. Se quer saber eles nunca me avisaram e cá entre nós acho que eles sempre torceram pra eu tomar no cu. E quanto a falar mal de você… Não gostei e deixei claro, apesar de concordar que você agiu como um idiota, mas cá entre nós eu também agi como uma, então te dou um desconto. E… Só pra constar: Meu idiota.
O tempo passou e as situações mudaram, eu parei de vê-los e me isolei um pouco. Nesse mesmo mês viajei e quando cheguei senti falta de ter alguém que quisesse me ouvir, como foi e com verdadeira curiosidade, enquanto se preocupava honestamente comigo. Mas isso não vem ao caso e eu não sei muito bem o que eu estou fazendo ou porque estou escrevendo isso, mas acho que é o efeito do whisky do meu pai que eu tomei escondido, mas isso não vem ao caso. Olha, eu sei que agi como covarde e fui uma verdadeira desertora, mas cá entre nós esses são meu fortes. Sinto muito se te magoei, mas eu também me magoei. E acho que se formos contar os pontos, está um a zero para mim, já que eu nunca te fiz chorar e não posso dizer o mesmo de você. Mas eu não sinto raiva de você, apesar de todos terem dito que eu deveria. Se bem que eu nunca fui muito de ouvir o que os outros dizem e jamais farei o que eles mandam. Porém o que eu mais senti, e sinto, falta é do fato de que você se importava comigo e eu sentia que podia me importar com você. Ninguém nunca se importou muito comigo, nunca chegaram a ter paciência e quando viam o monte de merda que eu era, e que teriam que escavar muita coisa para poder chegar algo realmente produtivo, desistiam. Você não desistiu e eu admirei isso em você, eu sempre te admirei. Eu quase sempre eu sou covarde, mas ser covarde é bom às vezes… Então vou agir como uma agora, porque eu estou com medo e, pela primeira vez, estou meio preocupada com o futuro. Então…
Então, agora, vamos fingir que estamos em um livro qualquer de contos de fadas que começou com o fim e que o “era uma vez” ficou perdido entre um lobo mal aqui e uma bruxa má ali junto com o “E viveram felizes para sempre”. Eu e você somos os personagens principais. Eu sou a sua princesa que gosta de ler de madrugada bebendo uma xícara de café enquanto escuta baixinho música lírica, que invés de um vestido cor-de-rosa gosta de usar calça jeans apertada e cabelos soltos, princesa que gosta de pintar as unhas de preto enquanto canta baixinho uma música qualquer do Rolling Stones e que vive de batom vermelho, que sente tesão por caras meio italianos e adora perfumes almiscarados. E você é o meu príncipe, que invés de ter um cavalo branco tem uma Harley Davidson preta, que vive de cabelo meio bagunçado e barba de dois dias por fazer, gosta de rock clássico e substituiu a armadura brilhante por uma calça jeans folgada, que quando você está sem camisa ela insiste em ficar caindo dos quadris mostrando sem querer (querendo) aquelas duas covinhas no final da suas costas que eu amo, príncipe que gosta de usar camisetas de bandas antigas debaixo de uma jaqueta de couro, que detesta perfumes doces e adora arranhões e mordidas, que é sarado mas sabe ser gentil, é meio bad boy mas não se importa em ser bobo e engraçado, é meio frio as vezes quando a gente fala do passado mas adora me fazer rir porque jura que minha risada é bonita e que eu fico fofa com as bochechas rosadas. Somos os personagens, mas eu acho que não tem problema se a gente der uma de escritores e fizer nosso final feliz. Então? Que tal você vir aqui de uma maldita vez e me ajudar á reescrever isso direito? Ou se você não gostar do enredo a gente pode apagar tudo e criar tudo de novo. Do inicio. Do nosso jeito meio sem jeito. Mas com uma condição: Que comece com um lindo “era uma vez” e termine com um final feliz. O que você acha?
Meu pai andava preocupado comigo, minhas amigas estavam querendo me levar no analista e minha mãe tentava fingir algum sentimento em relação á isso tudo. Meu alarme contra problemas apitava loucamente, mas eu preferi desligar minha intuição por tempo indeterminado. Eu tentava dizer pra mim mesma que estava no controle da situação, mas bastava um olhar em mim pra dizer que era mentira; E tudo era culpa sua, pelo menos era o que todo mundo dizia, mas eu não ligava muito. Porque você era… Você. Você era como um remédio forte para uma doença rara que eu não queria parar de usar mesmo estando curada, porque você me fazia bem e eu gostava de quem eu era perto de você. Você me ajudou quando eu estava mal, me estendeu a mão e me levantou do chão, me entendeu e eu não precisei explicar nada porque você se ligava nos detalhes e entendia, estava do meu lado e se tornou minha pilastra de sustentação, se tornou indispensável. Você era o único que me conhecia de verdade, conseguia me enxergar de uma forma tão fácil mesmo com todas aquelas barreiras e muros de proteção, e não se importava com o que via. Conhecia meus problemas de relacionamento com meus pais e me entendia. Não ligava para minhas manias e dizia que meu jeito era fofo. E eu conseguia te enxergar também, eu te conhecia como ninguém e eu adoráva isso. E mesmo assim todos diziam que você não era para mim, que eu merecia um cara melhor, sem passado; Eles me perguntavam porquê eu ainda não desisti de você, mesmo você sendo aquela merda ambulante que você era, cheio de problemas e passado, e eu não sabia o que responder. Eu achava ridículo a preocupação deles, porque todos tem problemas e passado, e eu só estava dando o benefício da duvida para ti, porque eu via que você valia a pena, que isso tudo valia a pena. Mas às vezes quando a gente brigada e eu falava coisas sem pensar, mesmo de cabeça quente, você procurava me entender, não jogava tudo pro alto como a maioria, e ficava do meu lado. Via que mesmo eu sento tão esquentada, eu valia a pena. Mesmo a gente sendo diferente, ia funcionar. E era nessas pequenas coisas que eu via que podia dar certo.Uma vez eu e você estávamos na casa de campo do meu pai pro natal, até minha mãe estava lá, foi muito legal, mas a gente estava cansado de mais pra dirigir de volta e meu pai pediu pra gente dormir lá, a gente aceitou, só tinha ficado nós quatro na casa e tudo parecia promissor. Mas quando eu acordei na manhã do dia 25 e você não estava do meu lado achei estranho, porém não liguei muito, achei que provavelmente a sua mania de acordar de madrugada pra tomar café devia ter te vencido. Parecia cedo e o sol ainda estava fraco. Eu decidi ir pra cozinha, e ainda nas escadas ouvi a voz do meu pai e parei.- … E é por isso que eu acho que minha filha é diferente das outras garotas que você deve conhecer, meu rapaz. E é por ela ser assim tão boa e inocente que eu peço que você não machuque ela. Ela parece gostar tanto de você…
- E eu gosto muito dela, senhor… Jamais faria algo que pudesse magoa-la. – Você falou baixo e eu quase não ouvi.
- Isso é bom, meu rapaz, isso é muito bom… Eu tenho uma pergunta, você já pensou em deixar ela? – Isso me deu um frio na barriga e eu procurei ouvir melhor.
- Já. – Eu senti uma sensação de choque e de repente minhas pernas ficaram moles, me sentei no meio da escada, você nunca tinha me dito que já tinha pensado em me deixar e isso doeu.
- Por quê, meu rapaz? Ela fez algo? E porque não a deixou? Posso saber?
- Não, não foi culpa dela. Às vezes ela pode ser uma coisinha irritante e teimosa, e tudo quase sempre acaba sendo do jeito que ela quer, mas eu não ligo, porque vale a pena dar o braço a torcer pra vê-la sorrindo, o senhor sabe. Na verdade, é por que… Todo mundo diz que isso não vai funcionar, e o senhor não precisa mentir, eu sei que as pessoas que amam sua filha não gostam muito de mim. Eles não são muito meus fãs e todos dizem que eu não sou o melhor pra ela e eu já cheguei a pensar sobre isso. E eu, às vezes, acho que não sou bom o suficiente pra ela. Mas eu amo sua filha e eu sei que ela me ama, e apesar de tudo, ou… Não sei, por causa de tudo, eu sei que não posso deixa-la. Eu sei que não conseguiria deixa-la. Porque eu vejo que vale a pena, que está dando certo e vai continuar dando. Ou talvez seja porque eu sou egoísta de mais pra abrir mão dela. – Você falou com o seu jeito calmo, como se mesmo com cabelos brancos meu pai ainda não fosse intimidante. A cozinha ficou em silêncio e eu fiquei preocupada, meu pai sempre foi muito super protetor e com a sua clara demonstração de possessividade achei que fosse ter problemas, mas quando eu ouvi a risada dele eu voltei a respirar.
Ninguém nunca teve coragem de enfrentar o meu pai e dizer o que pensar na cara dele e tenho que admitir você ganhou alguns pontos comigo. Mas foi com o que você disse que eu me importei, foi a verdade que eu ouvi ali que fez a diferença e me encantou, foi aí que eu percebi, que mesmo a gente sendo diferente um do outro ia dar certo, porque não importava o que os outros dissessem a gente é que ia fazer valer a pena. Não importava se ninguém apostasse na gente, nós íamos ganhar do mesmo jeito. Uma vez meu pai me disse que “ É ruim perder, eu sei… Mas sabe de uma coisa? A gente não deve parar de jogar apenas pelo medo de perder, porque quem não joga não perde, mas também não ganha…”. E isso é verdade, e… Cá entre nós, quando se trata da gente, vale a pena correr algum risco, você não acha?
E eu sorri enquanto a risada de vocês dois ecoava pela cozinha. Pois ouvir aquilo, de uma forma tão inesperada, tinha me deixado tão feliz que eu mal conseguia respirar. Era como acordar com cinco anos de novo e levantar da cama correndo enquanto os primeiros raios de sol do dia 25 de dezembro me iluminavam junto com a certeza de que embaixo da arvore de natal tinha algo pra mim, um presente que o papai Noel tinha deixado pra mim. E eu me senti tão feliz e leve quanto eu me sentia quando eu era pequena, uma menininha inocente e feliz, meus pais ainda moravam juntos e a gente era feliz, e era tudo cor de rosa. Mas, agora, o melhor de tudo era saber que, mesmo sem perceber, você me deu um presente que eu nem sabia que queria: a certeza de que a gente é e vai continuar dando certo. Eu sorri enquanto me levantava e começava a ir pra cozinha, com a certeza de que você seria o presente que continuaria me fazendo sorrir por muitos e muitos natais a partir desse.
Cá entre nós eu nunca fui muito do tipo que gosta de competição. Concorrência para mim é sinônimo de dor de cabeça e uma boa perda de tempo. E sinceramente? Se for para perder tempo prefiro ficar no meu sofá, com meu gato, olhando para o teto e não fazendo nada. Não sei bem o porquê disso, porém tenho certeza que não é preguiça… Não totalmente, pelo menos. Mas se eu for parar para pensar, for especular, talvez seja pelo fato de que não me considero melhor do que a maioria e quase sempre perco em jogos competitivos. Quando o assunto é debater e argumentar, me garanto. Porém quando é para jogar… Sou um desastre. Todo mundo sabe que para ganhar é preciso jogar sujo, e eu não consigo. Idiotice, eu sei. Sabendo de antemão que vou perder, prefiro então não jogar, e ficar na plateia apenas assistindo é minha opção nada atraente.Não me entenda mal, não sou uma péssima perdedora, o problema é que eu não consigo suportar essa ideia de perda. Essa sensação de que estive á um passo de algo, algo que talvez nem quisesse tanto assim, mas mesmo assim consegui colocar tudo a perder pela minha falta de competência. E isso me irrita, muito. E você sabe, eu odeio ficar irritada… De todos os sentimentos a raiva é o pior. Quando você está com raiva você perde a noção, você fala e faz coisas que não faria se estivesse com o controle de si próprio. É como uma droga, ela entra pelo seu sistema nervoso, borra sua vista, te sufoca e embaralha seus pensamentos. É, é uma merda.
Mas isso não vem ao caso. Porque agora não estou irritada, não muito, pelo menos, e esse nem é o problema em questão. O… “Problema” é um tanto chato e esses dias vem me tirando o sono sem piedade. Eu passei as ultimas horas pensando numa forma de te dizer “isso” logo de uma vez, porém minha coragem resolveu continuar na cama hoje de manhã e sem ela fica meio difícil, então peço que tenha paciência comigo. Nesse momento eu estou imaginando onde ela se enfiou. Provavelmente no meu sofá, comendo um pote de sorvete de baunilha enquanto imagina como eu devo estar sendo patética agora e dando umas belas gargalhadas as minhas custas… Pelo menos alguém está se divertindo nisso tudo.
Seria bem mais fácil pra mim se as palavras resolvessem não fugir e meus pensamentos parassem de se embaralhar, mas aparentemente nada está saindo como o planejado, pois os meus planos de ser indiferente desceram pelo ralo junto com o que eu ia te dizer. Juro que estou tentando ser rápida. Certas coisas são como tirar band daid, quanto mais rápido puxar menor a dor. E… Mas quer saber? Isso é mentira e essa comparação não está ajudando em nada, tentar fazer as coisas rápido só está me confundindo mais. Estou meio cansada de usar palavras difíceis com você e concordar com essas comparações pateticamente clichês, numa tentativa de tornar tudo mais fácil para mim (já que você é o Sr. Indiferente), porque eu não concordo com isso. Na verdade eu não concordo com quase nada, como você disse eu “nasci para ser do contra”. E Sinceramente? Você tem razão, porque eu acho isso uma besteira já que doí do mesmo jeito. Você tirando devagar ao menos dá tempo da pessoa se acostumar com a ideia de sentir dor, da dor em si… E é isso que eu estou tentando fazer: Enrolar até você se distrair e de repente jogar em cima de você… Aquilo. Mas pensando bem, como eu disse, acho que estou fazendo isso por mim mesma, não por você. Já que tenho sérias duvidas de que você é um sociopáta.
Um sociopáta inalcançável e muito do sedutor, sem falar que seu jeito às vezes nostálgico é (meio que) apaixonante. Porém eu juro que aí dentro ainda tem alguma coisa que valha a pena, porque quando olho no fundo dos seus olhos as vezes posso ver algo passando por eles, mas infelizmente á uma camada de ironia cobrindo e mascarando qualquer emoção, e isso dificulta, sem falar que se eu estender a mão para tocar nesses seus cabelos ridiculamente macios e sexys, poderia acabar batendo minha delicada mão em um muro. Gostaria de saber por que você é tão inalcançável, porém vou deixar essa questão, junto com as mais de 300 outras que tenho, no fundo do meu armário embaixo da coleção de livros da Agatha Christie que ganhei de herança do vovô. Agora preciso me conformar que ser indiferente com você é suicídio e tentar enrolar só piora. Falar a verdade nua e crua, mesmo tento que arrancar dolorosamente o meu band daid de uma fez, é a melhor saída pra mim… Já que você sente o cheiro de mentira á quilômetros e isso é irritante.
Eu confesso, estou enrolando. Enrolando quem? A mim? A você? A gente? Não sei. Só sei que estou nessa tentativa idiota de achar as palavras certas para dizer… Que eu estou desistindo de você. Pronto. É isso. Falei. E é oficial, então pode ir avisar para minha antiga concorrência que agora é menos uma otária. Ops! Falei “otária”? Desculpa, quis dizer… Não, esquece! Sabe por quê? Porque eu quis sim dizer “otária”, e não me arrependo. Sim, elas são otárias, assim como você é um otário. Elas são otárias por acreditar que um dia vão conseguir ultrapassar essa muralha patética que você colocou aí, que vão conseguir dissolver com um amor de novela mexicana essa sua ironia, prepotência e arrogância. Sinto pena delas… Em pensar que eu fui assim! Patética garota inocente, boba romântica, que acreditava que com um pouco de amor morno e palavras dóceis ia conseguir ultrapassar todos esses empecilhos colocados por você no caminho que leva ao que você chama de coração. Se isso é um coração, não quero nem saber o que o Hitler tinha. Você é cruel, pois você sabe que nenhuma delas vai conseguir ultrapassar isso tudo. Mas você se senta aí e fica apenas assistindo. Assistindo a derrota delas, assistindo uma por uma tentar até desistir, porque ninguém consegue, eu tentei de todas as formas possíveis, seja com jeito de menininha dócil, seja como uma garota determinada, de todos os jeitos e maneiras que eu conseguia pensar, e juro que só o que consegui foi uma bela dor de cabeça e a certeza que nunca conheci um cara tão idiota como você… Será que eu te conheci? Tipo… Conheci mesmo? MESMO? Duvido muito.
Eu, hoje, sinto pena delas, e de quem eu posso ver quando eu te olho, e é engraçado porque mesmo sabendo todos os seus defeitos, mesmo conseguindo te enxergar, mesmo vendo essa merda ambulante que você se tornou eu não consigo acreditar que vou desistir, não consigo me conformar que te perdi, eu não consigo parar de me sentir tentada a volta a agir como aquelas otárias. Eu me sinto atraída por esse sentimento, que na minha percepção é mais doentio e físico do que qualquer outra coisa. E eu fico me enganando que vai passar, e quando passar vai levar embora esse aperto no peito, e essa vontade de conhecer mais desse quebra cabeça humano que você é, de saber no que se passa nessa cabeça teimosa, de conhecer até onde vai essa nostalgia, poder ir até onde você pode levar uma garota, poder me aconchegar nesses braços ridiculamente únicos e aproveitar o calor que irradia desse peito macio que pode ser incrivelmente frio, a vontade de saber como é se sentir abraçada (tanto pela sua alma quanto pelo seu corpo) por ti…
Mas, mesmo assim eu não vou voltar atrás. Eu disse, tem muita concorrência e eu sou preguiçosa de mais para lutar e sofrer por uma coisa que com toda certeza tem outra garota louca para ocupar esse lugar sem te questionar. Porque se eu pudesse ter uma simples conversa, franca e verdadeira com você, sem nada entre a gente, sem que você colocasse um muro ou empecilhos no caminho, se você me ouvisse de verdade e até tentasse levar em conta o que eu falo, eu ia te colocar contra parede. E ia tirando uma por uma dessas merdas que te cercam, atém só restar o seu verdadeiro “eu”. Até restar o cara bacana e especial que eu sei que está soterrado em baixo de tanta merda aí. Mas você não gosta de coisas fáceis e esses dias eu estou preferindo aquelas comédias românticas bobas á suspenses policias… É melhor ficar como está agora. Você com as otárias ao seu redor aumentando seu ego com a burrice e jeito patético de tentar chamar sua atenção delas, enquanto eu fico aqui, de vez em quando olhando na sua direção para rir um bocado do jeito patético delas e sentir pena de você, enquanto fico na minha cama junto com a minha Coragem dividindo um pote de sorvete de baunilha, com meu gato gordo que meu ex me deu ronronando como louco, e aproveitando o fato que às vezes, de vez em quando, é bom ser fácil. É bom gostar, e viver um dia ou dois no modo leve, o “fácil” às vezes é tão gostoso quanto um sorvete de baunilha. Porque às vezes a gente cansa de pisar em cima da intuição e engolir o orgulho, apenas para lutar sozinha por algo que deve ser batalhado em dupla. Então… A gente se vê por aí, e eu espero que você encontre alguém mais ou menos como eu, porém com mais um pouquinho de disposição para lutar por ti e coragem de usar golpes sujos.
E … Sei lá. Em pensar que meu dia começou tão bem e agora me encontro nessa noite (madrugada, tanto faz) horrível. Eu estava tão bem, estava me sentindo tão leve… Mas agora meu coração está tão doído e pesado, que aparenta ter triplicado de peso. E tudo por culpa de algumas palavras. Algumas palavras tão dolorosamente frias e realistas que acordaram todas as outras dores que estavam dormindo. Pequenas (mas eficazes) palavras que abriram feridas antigas… Sem dó nem piedade. E agora eu estou aqui, chorando igual á uma desesperada por coisas que já passaram e que ainda me fazem mal. E eu realmente não sei o que fazer, pela primeira vez, eu não sei pra onde correr.
Eu sempre, em toda minha vida, tive lugares e pessoas que eu sabia que sempre poderia contar. Eu sempre tive pessoas que eu sabia que iam segurar na minha mão e não me deixar tocar no chão quando eu tropeçasse. Eu sempre tive um porto seguro que me protegesse da chuva e que me acolhesse no frio. Mas agora eu olho em volta e não veja nada, agora eu procuro e não acho nada… A não ser você. E eu estou percebendo agora, que eu não tenho pra onde correr… Mas ainda tenho você. Todos os meus esconderijos e refúgios desmoronaram em cima de mim e eu estou aqui, no meio da noite, em baixo de uma chuva pesada e desnorteada. E não sei o que fazer, mas ainda me resta uma alternativa: chamar você, gritar seu nome e correr até ti. Mas eu não posso, não mais. E a única coisa que meu cérebro cansado e desmotivado sabe que eu tenho (que eu preciso) fazer é chorar, e é isso que eu estou fazendo… Estou chorando.
Eu estou chorando por tudo, tudo que já passou e que um dia me magoou. Estou chorando por ter magoado quem um dia só me fez bem. Estou chorando por ter deixado algumas pessoas partirem e por eu mesma ter partido diversas vezes, por medo de ficar presa no mesmo lugar muito tempo. Estou chorando por ter tido medo e por ser covarde, eu estou chorando por ter perdido tanto tempo da minha vida com bobagens. Estou chorando por sempre dá um jeito de ferrar com tudo. Estou chorando por coisas que eu tenho saudade e sei que não voltam mais, agora só me resta vontade de revivê-las. Eu estou chorando por tudo, que foi, que é e que será. Estou chorando pra tentar descarregar esse peso de dentro de mim, tem uma hora que a gente cansa. E eu não aguento mais viver carregando essas coisas dentro de mim. A viagem é longa e caminhada é árdua, e excesso de bagagem custa caro… Peso desnecessário atrasa a gente.
E eu agora estou chorando, sentada no meio fio enfrente á sua casa sem ter pra onde ir. E eu estou sentada aqui só por sentar, não estou esperando você. Eu só sentei aqui por que… Bom, porque é um jeito de ficar perto de você. E eu não tenho esperanças de você sair de lá de dentro correndo, apenas pra me abraçar forte e dizer que vai ficar tudo bem. Eu não tenho esperanças de você vir até mim e com seu jeito tranquilo e calmo tirar esse peso dos meus ombros, pois eu sei que você não vem. Eu sei que você não pode parar de viver a sua vida pra cuidar de mim, por que… Você tem que viver. A culpa não é sua da minha vida ser assim: uma confusão dolorosamente clichê. E eu não te chamo mais, não porque eu não quero… Pois só Deus sabe o tamanho da vontade que eu tenho de sair correndo ao seu encontro. Eu não te chamo, mesmo sabendo que você viria, pois acabei de perceber que eu estou atrasando a sua vida. A cada vez que eu te chamo, te fazendo parar no meio do caminho pra vir me ajudar a levantar, você se atrasa. E eu te amo tanto, que não quero mais te atrasar. Eu estou afastando esse peso desnecessário, vulgo eu, de você. Você não precisa mais me carregar nas costas e fazer o caminho, vulgo vida, por nós dois. Meu amigo, você não precisa mais. E eu estou agora, oficialmente, decidindo viver minha vida o mais independente possível. Pois vai chegar um ponto, em que eu não vou ter pra onde correr e nem aonde me esconder, como agora. Pois eu nesse momento ainda tenho você, mas me recuso a acreditar nisso, pois eu preciso perceber que nessa corrida eu estou sozinha. Então agora só me resta tirar essa bagagem desnecessária e seguir com meu rumo, sem você pra me carregar… Mas com o apoio do seu olhar e sua mão na minha, me ajudando e mostrando o caminho… Lado a lado.
Vem cá, pequeno, senta aqui do meu lado. Pare um pouco e olha pra mim… Para de andar de um lado pro outro, você está me deixando tonta. Eu sei que você está confuso, nervoso e machucado, mas sente-se um pouco. Eu sei, eu sei que você é forte. Mas veja bem, até os fortes se cansam, até eles descansam. E olha… Por mais que você corra, você não vai achar o caminho pra voltar atrás, você não vai conseguir desfazer o feito. Não tem como mudar o passado, agora o jeito é tentar viver o presente com ele… Não adianta correr, ele sempre vai estar no seu encalço, te dando sombra. Não importa o que você faça, pra onde você corra… Você sempre vai ter a sombra do passado lhe encobrindo. Então, se acalme. Ver-te nervoso me aflige.
Pequeno, eu sei que você não gosta de ser visto como fraco e muito menos que tenham pena de você, mas entenda: á uma grande diferença entre estar machucado e ser fraco. E uma maior ainda entre querer ajudar e ter pena. Ouça-me, não tente discutir, guarde suas forças para seguir em frente. Apenas me ouça… Mas antes de tudo, pare de tentar se esconder. Eu te conheço bem ao ponto de saber que esse aí, não é você. Esse aí é um cara que você criou pra esconder a sua versão machucada de si mesmo… Esse reserva não está jogando muito bem, que tal colocar ele no banco e trazer o jogador de verdade de volta? Isso, querido… Chore. Ver-te chorar me machuca, muito. Mas eu sei que você precisa chorar, precisa se lavar, precisa descarregar. Eu sei que você precisa descontar nas lágrimas e nesses soluços tudo que está preso aí dentro, te sufocando. Acredite, essas lágrimas vão conseguir desfazer esse nó que se formou aí na sua garganta e amenizar aquela angústia no peito. E ainda de quebra elas vão retirar todos os excessos dessa máscara de arrogância e frieza com a qual você se escondeu.
Eu sei que você mostrou a ela o seu melhor, mostrou um lado que ninguém conhecia um lado seu que era tão vulnerável… E eu tenho medo de falar em voz alta, mas eu temo que o seu melhor não foi bom o suficiente pra ela… Nada era bom o suficiente pra ela. E sei que ela nunca quis você, pelo menos não da maneira que você queria mesmo ser amado. E você sente como se você fosse um erro, mas você não é o erro, meu amor. O problema aqui não é você. Ela não vale todas essas lágrimas, que não vão embora que não param de cair, que não acabam. Parece que quanto mais você chora, mais lágrimas nascem em seus olhos, não é meu pequeno? E… Caramba! Eu queria que você pudesse ver que, ainda que você tentasse impressioná-la, fazendo o que fosse, falando o que fosse e como fosse… Ela nunca ia te ouvir, nunca ia olhar pra você como você queria que ela te visse. Ela não era pra você, ela não é pra você. Porque ela não merece o cara legal que você. Ela não ia te dar o seu devido valor.
Você ainda esta triste como quando ficou ao ver seus sonhos esmagados? Por mais que isso seja doloroso pra mim, velho amigo… Você está morrendo por dentro, posso ver nos seus olhos que não refletem mais emoção alguma. Por que você não pode acreditar? Você cresceu e isso, essa decepção, deve ser enterrada junto com o seu “eu” antigo. Não adianta negar, todos nós uma hora ou outra crescemos e deixamos pra trás quem erámos antes. Você foi machucado e ferido, mas você cresceu. E agora que você cresceu, mas não deve continuar com essa noção de que você foi o culpado.
E você parece tão forte às vezes, mas eu sei que você ainda sente o mesmo… Eu te conheço bem, pequeno. Você ainda sente a ferida doer, arder e incomodar… Mas se acalme, apesar de não parecer, uma hora ela sara e só o que vai restar é uma cicatriz. Mas… Porque você mudou tanto? Onde foi parar aquele menino risonho e brincalhão que eu conhecia? Aquele que tinha uma coleção de piadas e tiradas, que perto dele eu não conseguia ficar nem um segundo sem rir. Perto de ti eu não conseguia ficar triste, ao menos um sorriso de mim você arrancava. Você transpirava alegria, você passava segurança e calma. Aonde foi parar aquele olhar pespicáz, aquele sorriso bobo e aquela fala arrastado? Eu acho que foram embora com aquele seu andar manso e sua atitude leve. Você sempre me dizia que achava minha risada engraçada, que ela te animava. Você dizia que por mais difícil que seu dia fosse, ver alguém que você gosta sorrir te acalmava. E você me animava você me tira da tristeza e te ver assim… Faz-me mal. Sinto-me impotente, me sinto de mãos atadas, me amigo. Eu seria capaz de tudo pra te trazer um sorriso verdadeiro agora, queria retribuir seu gesto, queria poder tirar essa tristeza de você, queria poder te ajudar… Quantas vezes você não me reconfortou e me fez esquecer-se dos meus problemas? Inúmeras. Mas se acalme… Eu prometo que não é sua culpa, nunca foi sua culpa. Nada foi por sua causa, se acalme. Assim como eu, eu estou tentando me acalmar com a certeza de que você volta. Seu verdadeiro eu vai voltar… Seu jeito vai voltar, suas manias e birras bobas vão voltar, suas bufadinhas vão voltar, suas reviradas sarcásticas de olhos vão voltar, suas frases vão voltar, seu jeito lindo de me proteger vai voltar, sua mania de fazer piada de quase tudo vai voltar, sua alegria, sua calma, seus sentimentos, seu sorriso… Tudo vai voltar. Meu velho amigo vai voltar. Meu melhor amigo vai voltar.
A apesar de ter doído eu ri. E apesar do que você me falou e da situação, eu ri. Não por ter sido engraçado ou qualquer outra merda, mas sim por aquilo ter sido uma das maiores imbecilidades que você poderia ter falado naquele momento, naquela situação… Ri porque essa foi a minha primeira reação, uma das duas que veio a minha cabeça e ao meu sistema (chorar ou gargalhar?)… Eu tinha que… Não sei… Eu tinha que fazer alguma coisa… Certo? E essa “coisa” foi uma das alternativas, a que eu achei que seria a melhor dramática: rir. Rir, naquele momento, era à única saída. Talvez se você me visse rindo não percebesse o estrago que você consegue fazer comigo. Já que agora eu tinha que ser forte e chorar era sinônimo de fraqueza.
Chorar eu deixaria para depois, pois eu tinha certeza de que quando chegasse ao meu apartamento ia… Não, eu me conheço bem o bastante para ter certeza de que eu não ia conseguir guardar muito mais tempo, quando eu passasse pela porta do bar (onde a gente estava agora) e percebesse que “a barra estava limpa” (eu tenho que melhorar meu vocabulário, você tem razão) eu ia desabar. O nó que se formou mesmo antes de você completar a frase, seu olhar irônico e seu sorriso sacana já diziam o que vinha pela frente, estava me sufocando aos poucos e eu precisava respirar. Talvez seja por isso que minha bebida esteja acabando tão rápido… Eu tentava empurra-lo.
A conversa continuou normal, ou melhor, dizendo… A conversa continuou no nosso normal: Implicâncias, frases de duplo sentido, provocações… E como sempre nosso querido e velho amigo, o “silêncio constrangedor” sempre dava um jeito de nos atrapalhar. E uma das coisas que eu mais odeio nisso tudo é o fato de nós dois nunca conseguirmos conversar só a gente, sem essas outras coisas no meio. Sem esse silêncio constrangedor, sem palavras frias, sem ironia, sem implicâncias e criancices… A gente nunca consegue conversar sem ter algo entre nós. Sem ter uma camada de proteção nos envolvendo… Isso é terrivelmente irritante. Nos nunca conversamos apenas nos dois, sem algo mais nos impedindo de ser… De ser nós mesmos.
No meio de uma frase, que eu pressenti que ia doer, você pediu desculpas e atendeu o celular… E assim pude ver que aquelas figurinhas que eu colei nele, ainda estavam ali. Parece que foram colocadas á muitos anos atrás… Mas não, elas ainda estão bem conservadas, ao contrario do celular em si. Lembro-me bem de você reclamando por eu ter colado elas ali… Só porque são de joaninhas. Mas porque você as manteve? Mesmo depois do… Você termina a ligação e olha pra mim um tempo. E de novo você faz isso: Deixa-me sem reação, porque você parece saber exatamente tudo. Tipo, tudo mesmo. Tudo que está na minha cabeça nesse exato momento, tudo que eu vivi esses quatro malditos meses, tudo que eu venho sofrido, fazendo, falado e ouvido. Você parece ter visto todas as vezes em que eu chorei por sua culpa, parece ter ouvido as minha orações e promessas relacionadas á nos dois… Como sempre, você parece saber de tudo. E caramba, isso me deixa muito… Confusa. Depois de alguns minutos você pede desculpas e fala algo relacionado á um compromisso, eu simplesmente concordo e nos despedimos. Você dá um mínimo sorriso e um aceno de cabeça e eu levanto a mão. Só. Essa é a nossa despedida.
Eu fico mais alguns minutos ali, sentada, já na minha quarta garrafa de cerveja. Termino ela, deixo uma gorjeta pro garçom e saio para a noite fria. Sinto a garoa fria em mim e nem ligo. Olho pra cima e sinto o ar gelado secar rápidas as lágrimas que mal escorreram dos meus olhos. Solto o ar enquanto dou uma risada amarga… Repasso mentalmente toda a noite, o inicio ao fim… Quero gravar ela na minha memória. E agora tudo me surpreende. Depois do calor do momento a gente avalia a situação com mais calma, e tudo fica mais claro. E o que mais me surpreendeu foi sua fala, totalmente imbecil, critica arrogante e… Claro! Dolorosa. Bem a sua cara: ‘’Para de ser dramática! Amor não mata, não doí, não machuca… ’’ HÁ! Claro. Com total certeza; o amor não mata. Então me explica o que eu venho fazendo desde que te conheci? Explique-me como eu venho morrendo cada dia, um após o outro, depois de ter te conhecido? Porque eu me importo e insisto teimosamente nisso mesmo sabendo que sempre vai doer? Explique-me também o que se passa aqui dentro, porque depois dessa nem eu mesma me atrevo a pensar e a procurar uns motivos pra essas situações e questões. Você sempre tem razão, certo? Você sempre sabe de tudo, certo? Então, me explique algumas coisas; o eu sinto, o que aconteceu conosco, porque você mudou tanto… E como eu disse, desisto de pensar e procurar entender.
Suspiro e levanto a cabeça, deixando o frio gostoso bater no meu rosto, fazendo minhas bochechas arderem. Sorrio com a grande mentira que acabo de pensar, é obvio que eu não desisto… Eu nunca desisto. É sempre assim. Eu corro atrás, aí eu acabo tropeçando em algo, como nas suas palavras duras e caio. Doí. Não a queda em si, não é o impacto da queda que doí, o que mais doí é o medo, a sensação de desproteção, de vulnerabilidade que a gente sente quando ainda está no ar… Antes de chegar ao chão. E eu preciso sempre me machucar pra ver que não vale a pena, e quando eu vejo que a melhor saída é desistir, eu falo no calor do momento que desisto. E depois? É só o tempo passar, a situação esfriar, o machucado cicatrizar, pra depois eu voltar correndo; voltar correndo pra você. Eu me sinto um animal, um bichinho de estimação seu, que precisa de carinho e atenção. Sinto-me como algo que você tem a hora e no momento que quer, algo que você tem por puro capricho, por distração. Mas… Desisto. Não de você, obvio. Mas desse monologo, eu estou no meio da rua, de noite, numa garota, provavelmente bêbada, na saída de um bar qualquer e sozinha. Qualquer pessoa normal estaria com medo, mas a única coisa que eu consigo pensar é em você. Legal não?
Certa vez, ouvi sem querer na fila do supermercado dois amigos conversando, no meio da conversa um pergunta pro outro, mais ou menos assim: “O amor é um veneno… então pra que viver uma coisa que hora ou outra vai acabar te matando?” O outro deu um sorriso amargo e respondeu mais ou menos assim:“Nessa vida vai chegar uma hora em que a gente vai morrer mesmo, de qualquer jeito, não importa o que a gente faça, então pelo menos que seja envenenado de amor.” Isso me fez passar noites e mais noites pensando; será que é isso que me mantem presa á você? Essa esperança de morrer feliz? Me lembro agora de outra conversa, um homem perguntou ao outro “porque as mulheres escolhem tanto quando o assunto é homem? já que todos somos iguais e idiotas… porque elas escolhem tanto?” e o rapaz respondeu: “Na verdade, todos os homens são babacas. Elas só tem que escolher o babaca que as fazem felizes.” Então é isso? É por isso que eu, mesmo sofrendo as vezes, não desisto de nós? Porque apesar de tudo, ou por causa de tudo, você é o cara que me faz bem? O cara no qual vale apena morrer envenenada de amor? É isso?
E eu estava aqui ontem, pensando, entre minhas cobertas e em meio á alguns bons livros, na gente. Me perguntando o que aconteceu comigo, o que aconteceu com você. Pensando e tentando entender essa situação, me perguntando aonde foi que a gente errou. Entre um gole de café e uma página lida aqui e outra ali eu constatei que isso tudo é perda de de tempo e que nunca me senti tão velha. Estava me sentindo um brinquedo, velho e usado, e isso não melhorava em nada a situação e eu fiquei tentando enxergar algo de bom nisso tudo, algo que tornasse isso mais comédia romântica do que drama, porque cá entre nós eu estava quase surtando.
Eu me peguei pensando em como é engraçada a forma e a facilidade com que as pessoas te largam em qualquer canto, assim que veem algo novo. Foi aí, que pensando nisso lembrei da gente, e me lembrei de que certa vez quando eu tinha aproximadamente 7 anos. Eu estava andando na rua com minha mãe na rua, e eu vi de relance uma boneca na vitrine de uma loja. Eu queria aquela boneca, ela tinha que ser minha. Ela era tão… Perfeita! Mas, naquele momento eu tinha nas minhas mãos uma boneca que eu tinha ganhado no natal passado, fazia mal dois meses que tinha ela. O nome dela era Juju. Ela era simples, mas muito bonita. Juju não era uma barbie, nem muito menos uma daquelas que falam. A Juju não tinha maquiagem, nem tinha cheirinho de fruta, nem um cabelo muito arrumadinho e perfeito. Mas, do jeito que fosse ou estivesse… Juju era especial pra mim. Mas, no momento em que eu vi a boneca da vitrine, eu esqueci completamente da existência da minha boneca Juju. Comecei a implorar pra minha mãe a nova boneca. Minha mãe insistia, dizendo que a Juju ainda era nova e era especial, muito melhor do que a boneca da vitrine. Eu rebatia dizendo que a boneca da vitrine era melhor, mais nova e que eu tinha cansado da Juju. Então minha mãe entrou comigo na loja, comprou a boneca pra mim e eu saí de lá com a boneca nas mãos. Quando estávamos chegando em casa, vi uma criança, uma menina, nossa vizinha, praticamente da minha idade, sentada nos degraus da casa dela vendo o dia passar. Ela parecia meio triste e chateada. Todo dia eu via essa menina, mas hoje era diferente… Não sei por quê. Semanas se passaram e eu nem tocava mais na Juju, nem me lembrava dela. No outro dia quando nós voltávamos do meu colégio eu ia entrando no portão de casa, minha mãe me falou pra ir subindo, que logo ela me acompanhava. Fui na frente sem discutir. Logo depois minha mãe entrou em casa atrás de mim.
Algumas semanas se passaram e tudo estava normal. Mas, eu brinquei tanto com a Bibi (o nome da minha nova boneca) que enjoei dela. Joguei-a em qualquer canto e fui procurar a Juju. Mas eu não a achei. Eu fiquei triste, porque a Juju era especial e ela era linda e eu amava o fato de ela ser de porcelana e não haver outras iguais. Fui procurar minha mãe, porque eu precisava da Juju.
- Mamãe, cadê… Cadê a… A Juju? - Mal lembrava o nome da boneca.
- Eu dei para aquela menina, nossa vizinha…
- Mas, eu gostava tanto dela! Por que você a deu?! Ela era minha, minha… - Comecei a choramingar
- Porque você disse que não gostava mais da Juju… E a Juju ainda estava nova, ainda dava de brincar com ela. E aquela menina estava parecendo chateada, achei que isso animaria ela e animou, porque ela adorou a Juju. Já que você não queria mais ela, outra pessoa queria…
E era assim que eu me sentia, como a Juju. Jogada num canto qualquer. Largada, porque meu dono achou algo melhor que eu, mas novo e moderno. Não me sentia útil .. Por causa dele, por sua culpa. Mas cuidado, talvez assim como a Juju eu ache outro dono… Alguém que precise de mim, que goste de mim apesar dos meus defeitos e de eu ser diferente das outras. Porque, afinal, eu não fui feita para ficar largada. Assim como uma boneca de porcelana antiga e rara, eu preciso de atenção, preciso ser útil e as vezes a gente cansa de ficar na estante. Talvez quando você cansar de brincar com a outra e venha atrás de mim, eu não esteja mais aqui.
Rio de Janeiro, RJ.
Copacabana, cafeteria em frente á casa dele.
Por volta das 16:29 - 17/05/2010.
Querido diário,
Não fique com ciúmes, mas hoje vou escrever para ele e não desabafar para você. Sim, você o conhece, e inexplicavelmente senti vontade de escrever para ele, o meu eterno melhor amigo e dono do meu coração que jamais chegará a ler isso. Eu sei que isso soou no mínimo patético, mas o que posso fazer com a verdade? Afogá-la num copo de whisky? Perdoe-me, mas preferi mantê-la acordada com uma xícara de café.
Agora, eu estou aqui, sentada nessa cafeteria em frente a sua casa, rabiscando e escrevendo nesse caderno enquanto tomo um café e fumo meu cigarro. Tentando não parecer uma maníaca, eu olho agora disfarçadamente para sua porta, e logo após para sua janela, na esperança de te ver. Parece que foi há anos a nossa ultima conversa, parece que a gente não se vê á muito tempo, não acha? Mas não se engane… Só se passaram alguns meses. Mas o que me deixa confusa é a duvida de saber quem deixou quem. Você não sabe, mas doí eu não poder simplesmente ir para a porta e entrar, sem pedir permissão ou tocar a campainha, como eu sempre fazia… Lembra que seus pais até se acostumaram com a minha presença? E achavam engraçadas minhas maluquices? Lembra que eles me tratavam como alguém da família? Eles praticamente me adotaram, assim como você, e entendiam meus problemas melhor do que ninguém. Sua mãe vivia fazendo aquela torta de limão que eu amo… Apesar de ninguém ali gostar, ela fazia porque eu adorava e, sei lá, porque minha mãe era perua de mais para tentar ao menos fingir que se importava comigo ao ponto de sujar as unhas na cozinha. Você se lembra? Você não sabe, mas, várias vezes ela me disse que, apesar de tudo (ou por causa de tudo), ela jurava que íamos acabar juntos e que só íamos encontrar nosso “final feliz” um no outro… Mas ela não sabia nem metade da história e deve ter esquecido que “final feliz” só existe em contos de fadas e olhe lá. Ela era tudo o que eu queria que a minha mãe fosse, e ela gostava de implicar com o cigarro, mas fora isso, a gente se entendia. Seu pai me chamava de “parceira” e dizia que eu tinha que ter nascido homem. Pois gosto de futebol, curto rock, falo palavrão e sobre sexo sem nenhuma vergonha e sou muito… Muito eu. Eu sempre ria… Você dizia que a minha risada era engraçada e que eu ficava bonita com os olhos brilhando e as bochechas coradas.
Sabe? Desde aquela nossa ultima conversa, desastrosa, diga-se de passagem, não consigo parar de imaginar o que você anda fazendo sem mim… E em como está sua vida. Eu tenho que ser sincera, ando preocupada e pensando em como você anda se virando sem mim. Isso não sai da minha cabeça… Mas para ser totalmente sincera, não consigo parar de pensar em você e ponto, mas não é só pela preocupação em si, mas sim pelo fato de que estou quase morrendo de saudades e de que eu preciso urgente de ajuda em biologia. Mas nem adianta ter esperanças, porque eu sou muito orgulhosa para ir falar com você e prefiro ficar de recuperação, de novo. Pode chamar de teimosia, afinal… É isso mesmo. Sempre fui e não abro mão de continuar sendo, mesmo quando o assunto é você. Mas, eu quero saber… Sua vida melhorou? Arranjou novos amigos? Aquele emprego de meio período está dando certo? A sua professora de Educação Física ainda pega no seu pé pela asma? Mas me conta, vocês ganharam o campeonato de Futebol? Não me diga que se esqueceu de tomar a vitamina ontem… Você não pode esquecer que tem Oftalmologista daqui uma semana e meia. Seja sincero, por favor. Aquela menina que você tanto gostava em segredo agora olha pra você? Já que a estranha aqui saiu do seu lado, pensei que, talvez… Você mudasse aos olhos dela… Não sei. Pensei que sua vida fosse melhorar, que tudo voltasse pro seu devido lugar, já que você sabe que aonde eu entro tudo vira do avesso, e confusão e bagunça viram rotina. Mas… O meu lugar, aí na sua vida, vai ser ocupado? Está sendo ocupado por outra pess
Parei de escrever, me interrompi como você pode perceber. Agora estou sentada no banco traseiro de um taxi que está parado por conta de um engarrafamento, porém estou quase chegando na casa do meu padrasto. Estou tentando fazer minha respiração voltar ao normal e tentando ignorar o olhar estranho que o taxista me lança. O que me fez parar minha escrita foi um movimento na frente de sua casa que me chamou atenção. Olhei e vi a resposta muda ás minhas perguntas. Uma resposta que doeu até mais que o silêncio teria doído, e eu tenho certeza que ficar sem resposta teria sido melhor… Teria doído menos. Você saindo com uma menina, não estavam se tocando nem nada, mas era obvio que se conheciam bem, só pela forma como se olhavam dizia tudo. Ela era muito bonita, tenho que admitir, porém um pouco gordinha. Mais baixa que eu, olhos redondos, bochechas altas e rosadas, cabelos curtos, rosto de criança. Ambos tinham um sorriso radiante no rosto e trocavam olhares cúmplices .. Até o momento em que você olhou na minha direção, sua expressão mudou para choque, e eu acho que meu padrasto fez o que eu pedi e não falou pra ninguém que eu voltei de viagem. Provavelmente seu choque deve ser pela surpresa de me ver de repente, com toda certeza você ainda acreditava que eu estava viajando com a minha insensível mãe. Nesse momento ela deve estar em alguma piscina e tentando ficar parecida com um camarão e eu me arrependo de não ter continuado bem longe daqui, de você. No momento em que seus olhos se encontraram com os meus eu já estava chorando, você largou a menina e veio correndo na minha direção, mas eu não liguei muito já que estava numa luta com a minha bolsa. Deixei uma nota de 20 reais em cima da mesa, não esperei o troco porque você já estava quase terminando de atravessar a rua, me levantei e sai dali correndo. Ouvi você gritar o meu nome atrás de mim, mas ignorei enquanto xingava todos os taxistas do Rio de Janeiro por combinarem sumir de Copacabana num momento tão critico da minha vida. Você continuava correndo e gritando meu nome várias vezes, ignorando as pessoas que olhavam pra gente, assim como ignorava o fato de que se eu quisesse parar para conversar com você e com a garota baixinha, para prestar uma cena que seria no mínimo patética, eu nem sequer tinha começado a correr de vocês pra inicio de conversa.
Quando eu finalmente achei um taxi, que resolveu não entrar no complô contra mim, entrei de uma vez, sem me importar com os gritos de uma mulher, acho que ela ia nesse… Não me importa. Eu apenas mandei o motorista dirigir a toda velocidade pro endereço do meu compreensivo padrasto. Daí eu respirei fundo e olhei para trás, pelo vidro do taxi… Sei que essa janela, que esse vidro comum e qualquer, será o cenário de muitos sonhos e pesadelos. Olhei para você. Senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto enquanto via você correndo na direção do taxi, na minha direção, sem se importar com o transito. O taxi parou, graças á um engarrafamento, e você me alcança. Agora você estava frente a frente comigo, e quase sem perceber eu peguei o meu celular na bolsa e liguei pra você, o numero um da discagem rápida. Você tinha uma expressão de dor e isso me machucou, você parecia confuso e quando você se assustou, eu sabia que seu celular tinha começado a tocar uma música qualquer do John Mayer, você atendeu e eu apenas disse “Adeus” e levantei uma mão para coloca-la contra o vidro do taxi, a única coisa que meus soluços me permitiam… Você olhava bem nos meus olhos quando cobriu o outro lado do vidro com a sua mão, sobre a minha, enquanto falava rápido “Eu sei que agora não dá, tanto pra gente ficar perto um do outro quanto pra conversar, que aconteceu muita coisa e que estamos muito magoados, mas isso não é um adeus. Eu não posso ficar longe de você e eu sei que você não consegue ficar sem mim, e eu sei… Eu sei que a gente se ama e isso é o que importa, e por favor pelo menos uma vez não discorda de mim.” Eu sorri, e respondi “Ok, campeão… Você tem razão. Não irei esquecer isso. E até breve. E não se esqueça de mim.”, você sorriu entre lágrimas e respondeu com um suspiro “Nunca.” Continuei olhando pela janela, sorrindo chorando e você também, apenas nos olhando, sem nos importarmos com o barulho das buzinas dos carros. Você me entendia e me entende, não tentou me impedir… Apenas estava guardando e aproveita esse momento ao máximo, como eu. O taxi começou a se mover de novo, e eu praticamente gritei com o taxista, mandando ele ir o mais devagar possível. Ele me olhou como se eu fosse uma louca, talvez eu seja mesmo… Mas ele foi bem devagar, pelo acostamento, tornando possível a minha despedida com você. Continuei olhando você, vi você caminhar junto com o taxi, mas chegou um ponto onde você parou. E eu te vi se afastar. E quando não lhe vi mais, me viro sem conseguir mais olhar nos seus olhos e digo “Para com esse drama! A gente ainda vai se ver, campeão. Sei que pode não ser em breve, mas também sei que vamos nos encontrar por aí e vai ser melhor assim… Porque a gente sabe que agora não dá e é melhor assim. E vai ser num momento melhor e a gente vai estar bem. Se cuida, campeão, se cuida e manda a gordinha cuidar de você por mim, porque eu te amo e não vou estar aqui pra cuidar de você, já que eu vou ter que voltar pra búzios para ver se consigo achar minha querida mãe sem juízo. Tchau, até logo.” E eu desliguei, não esperei a sua resposta. Porque eu sei que a única resposta que eu mereço foi o silêncio, porque doeu muito te ver, com os olhos vermelhos e a mão na cabeça bagunçando os cabelos, num gesto de pura frustração, enquanto eu ia me afastando no taxi.
Mandei o taxista ir o mais rápido possível e eu acho que ele pensou que eu era bipolar, mas eu não ligo. E enquanto eu ia vendo a cidade pelo vidro do taxi, através da janela do táxi fiz uma oração-mantra-pedido, com toda a fé e força que tenho, pra qualquer deus que estivesse me ouvindo: “Que ele volte pra minha vida, que venha com as próprias pernas e que dessa vez seja pra sempre e que seja melhor… Que ele volte. Por favor… QUE ELE VOLTE. QUE. ELE. VOLTE.” E lá no fundo, apesar de tudo, algo me dizia que eu estava sendo ouvida e que talvez seria atendida.
Olha, tá difícil pra mim e você não está ajudando em nada. Eu sempre procurei te entender, e mesmo que não fosse fácil… Eu tentava, me esforçava. E, com muita força de vontade, sempre conseguia aturar, uma coisinha aqui e outra ali, não me importava de engolia alguns sapos e pisar em cima da minha intuição, sufoquei meu orgulho pra entender que seu coração sofre de estrabismo e que pra você é difícil viver sua vida com esse medo de ser uma cópia do seu pai. Sempre procurei te ajudar e fiz das tripas coração pra transformar tudo mais fácil pra você. Meu pai não era seu fã e não escondia isso, ele vivia me dizendo pra desistir e que a melhor saída era achar alguém que não fosse um tipo de âncora para mim, me puxando para baixo. Mal sabia ele que meu amuleto da sorte era as âncoras, e eu acho que ele esqueceu que eu tinha uma tatuada, pensei em comentar isso com ele, mas mudei de ideia e deixei ele listar animadamente todos os nomes de caras que, segundo ele, faziam meu tipo. Eu, como sempre, deixei ele falar, mas foi uma coisa que ele disse que me acordou. ”A vida da gente é resultado daquilo que a gente escolhe, querida.” Doeu. Foi como um tapa na cara, mas me acordou. E foi aí que eu percebi a resposta de uma pergunta que minha melhor amiga me fez á um tempo atrás “Se ele diz que te ama e vê que te machuca, porque ele não muda? Se é porque ele não consegue, no mínimo ele devia ser homem e te deixar livre.” Na hora eu não liguei e mudei de assunto, estava tão cansada de todos se metendo entre nós dois que achei apenas que fosse intriga da oposição. Mas uma vez eu bebi de mais e disse pra mim mesma, quando me lembrei dessa pergunta, que você não me deixava ir porque você não ia conseguir viver sem mim e nunca ia achar alguém como eu. Hoje eu vejo que estava meio certa, porque… Sim, você realmente não vai achar ninguém como eu, você não vai conseguir achar alguém tão idiota e ingênua como eu fui. Porque ninguém vai parar de viver a própria vida só porque você parou de seguir com a sua. Ninguém vai criar desculpas esfarrapadas para suas atitudes e esse seu jeito irresponsável de ser, ninguém vai entregar a própria felicidade de bandeja pra ti só para te ver bem. Ninguém vai estar sempre aí do seu lado quando você precisar, ninguém vai aguentar suas crises existenciais e te entender de verdade. Ninguém vai sempre dizer que você está certo, apesar de quase sempre não estar, e ninguém vai te ouvir calado e depois te abraçar apertado. Ninguém vai aguentar você nos seus dias de mau-humor, muito menos aturar seus momentos de ignorância e entender sua falta de carinho. Ninguém vai dizer que te entende quando você fizer uma burrada e vai estar lá pra te ajudar, tanto para concertá-la quanto para te apoiar. Ninguém vai andar de mãos dadas contigo, para quando você tropeçar, te segurar. Ninguém vai te fazer cafuné, te ligar, estar do seu lado em todos os momentos, te abraçar quando você estiver triste ou dizer tudo o que você precisa ouvir na hora certa e no momento certo. Ninguém vai ser otária ao ponto de esquecer a si mesma por você, ninguém vai deixar de lado a própria vida para fazer a sua mais agradável. Ninguém vai parar de sair para festas, falar com os amigos, só porque você é incrivelmente hipócrita e ciumento. Ninguém vai parar de usar certas roupas, só porque você as acha curtas e vulgares. Ninguém, nenhuma garota, por mais forte que seja, vai aguentar suas amiguinhas tapadas e sem-noção. Ninguém vai mudar o próprio jeito de falar e agir, só para te agradar. Ninguém vai ser otária, ninguém vai ser como eu fui… Não mais. Ninguém vai te entender, como eu entendo… Como eu entendia. Sabe por quê? Porque uma hora a gente cansa, campeão. Eu cansei.
Porque eu também quero alguém que, não que pare de viver a própria vida, mas que viva ao meu lado. Não quero alguém que deixe de ser feliz por mim, que entregue de mãos-beijadas a própria felicidade… Quero alguém que seja feliz comigo, ao meu lado e que assim me traga a felicidade. Quero alguém que esteja aqui quando eu mais precisar e que aguente minhas idiotas crises existenciais, mas eu vou entender se às vezes tiver que jogar um balde de verdades em cima de mim. Eu não quero alguém que viva dizendo que estou certa, quero alguém que me ajude a concertar meus erros… Que os concerte comigo, ao meu lado, lado a lado. Porém não quero ser peso nas costas de ninguém, prefiro andar com os meus próprios pés. Não quero alguém que fique calado apático, quero alguém que seja tão explosivo tanto quanto eu… Quero alguém que me enfrente, me irrite, me vire ao avesso, que me diga que estou errada, que me mostre o certo. Quando tropeçar, quero alguém que me segure firme pela mão, que me impeça de chegar ao chão. Quero alguém que saiba fazer cafuné, mas se não souber tudo bem… Aprende na prática. Não precisa me ligar sempre, basta apenas estar do meu lado… Nos momentos especiais e inesquecíveis, para que de alguma forma eles tenham um pouquinho de nós. Mas também nos dias comuns e normais, como num feriado qualquer vendo os filmes repetidos que passam a tarde na globo. Para quê telefonar ou mandar mensagem, se podemos falar olho no olho numa tarde de domingo qualquer vendo alguma comédia romântica boba? Quero alguém que tenha um abraço quentinho e apertado, daqueles que te tiram o ar e que te façam esquecer tudo. Se souber dizer palavras bonitas também não me importo, mas se for tímido e não muito bom com as palavras, não tem problema… A gente fica quietinho. Não quero um esquecido, que esqueça a própria vida, que não saiba conciliar a própria vida com o nosso relacionamento. Porque, afinal, existe tempo pra tudo, campeão. Não quero alguém que torne minha vida agradável, e sim complicada, como… Como um quebra-cabeça. Para que cada dia seja uma peça á mais, mais uma peça achada e no seu devido lugar. Para que no final, vejamos de longe nosso trabalho, enquanto pensamos: “Valeu a dificuldade e o cansaço, valeu não ter desistido e continuado arrumando os erros, mesmo que às vezes tenha sido difícil e chatinho, no final valeu a pena…” Quero fazer valer a pena, campeão. Eu ando querendo fazer valer a pena, você me entende?
Naquele dia, ouvi o sinal tocar, anunciando o fim da aula. Mas as coisas que aconteciam e se seguiam ao meu redor me pareceram incrivelmente distantes. A voz do professor falando algo não muito importante e alto de mais não me tirou do meu transe. Apesar de estar olhando para o meu caderno eu ainda podia ver os olhos dele, cheios de emoções indecifráveis, e ouvir claramente as palavras que ele dizia com uma voz calma de mais. Cada palavra reverberava em minha mente, mais alta que qualquer outro som ao meu redor, me impedindo de pensar com clareza. Eu sempre o achei indecifrável, difícil de entender, antes eu não ligava muito… Mas hoje a unica coisa que eu queria era conseguir entende-lo.
Somente quando o ruído dos bancos sendo arrastados pelos alunos começou e o murmurinho de suas vozes aumentou, que eu saí do meu transe, o barulho que os meus colegas faziam conseguiu vencer o volume de meus pensamentos e me dei conta de que estava imóvel, encarando meu relatório já pronto com os olhos levemente marejados. Por Deus, o que havia de tão errado comigo? Que droga! Eu estava cansada de saber que ele não merecia uma única lágrima minha, mas mesmo assim isso não me impedia de chorar. Saber disso não significava que eu ia conseguir seguir em frente. Eu sabia que sentia algo por ele, mas não entendia o que era aquilo. Eu não gostava de como as coisas estava indo, não conseguia mudar o rumo do caminho pelo qual eu estava seguindo. Não sabia pra onde correr, todo caminho que eu pegava pra me livrar dele, pra fugir dele me levava mais rápido e diretamente para o próprio. Eu não conseguia entender, eu estava confusamente mal e cansada. Eu não conseguia ver graça em nada e isso era meio que assustador. Mas o mais assustador ainda era o fato de que não existia sequer sentimento suficiente em nossa relação, ou seja, lá o que foi que tivemos ou temos, por que eu tinha que estar me sentindo triste, perdida, atraída, traída, machucada daquela maneira?! Nem eu mesma sabia direito o que sentia, o que estava fazendo minha cabeça borbulhar e meu corpo ficar oco.
u não gosto de ser assim, tão na minha. Isso me faz mal, porque as coisas, por mais simples que sejam, ficam aqui dentro me sufocando, entaladas na minha garganta.
Eu não gostava da forma como ele fazia eu me sentir, sentimentos contrários e juntos num só coração. ( Nunca me senti tão contraditória em toda minha vida, como me sinto agora. ) Eu sentia uma espécie de angustia, angustia de como se eu estivesse encurralada de todos os lados e a ponto de cair de um penhasco e ao mesmo tempo sentia aquela calmaria gostosa, que sentia ao lado dele, que me dava a impressão de que me jogar daquele penhasco fosse a coisa mais gostosa e normal a se fazer… Ele estava se tornando o meu penhasco, e isso era assustador. Mas ao lado dele tudo era diferente, o que era errado virava certo e o que era certo virava errado. Então, de alguma forma, tendo ele ao meu lado… Eu sentia que valeria a pena me jogar daquele penhasco. Cada minuto valeria a pena, o medo e a angustia, as incertezas sumiriam da minha vista e tudo o que eu viria seria o céu claro e ensolarado. Os sentimentos que me encurralaram a pouco não me pegariam viva, pegariam o que restaria de mim. Mas isso já não me assustava, pois eu estava com ele. E ele me protegeria.
E eu realmente sinto falta dele, dos momentos mais simples aos mais complexos e importantes. Nunca pensei que fosse sentir tanta falta de alguém na minha vida. Tudo nele é viciante, do cheiro gostoso e natural dele até os cabelos levemente bagunçados e macios. O sorriso maroto dele me encanta assim como a fala mansa e levemente enrolada dele. Aquele abraço apertado e quentinho que me refugiava era perfeito, me fazia fechar os olhos enquanto sentia o ar me faltar. (A vida se mede pelos momentos que nos faltam o ar, e não pelos suspiros.) Eu sinto tanta sua falta… Porque tudo teve que acabar assim? Estava tudo indo tão bem… Porque ele tinha que me deixar? Eu sei que não sou fácil de aturar, mas ele parecia estar indo tão bem, parecia que ele estava me aturando, e até gostando um pouquinho de mim, tudo estava tão tranquilo… Mas tudo isso era apenas a calmaria antes da tempestade.
E na frente dos meus olhos, diante de mim vi os sentimentos que me encurralavam sorrirem em deboche quando dei o primeiro passo para trás, para mais perto do penhasco, o céu ensolarado virou um cinza fúnebre e começou a chover. Mal acreditei quando a primeira gota me tocou e quando vi um vento forte se chocou contra mim, me derrubando… Não para o meu penhasco, logo atrás de mim como pensei, e sim para o lado deixando-me caída no chão, e vulnerável ao ataque dos sentimentos. E eles atacaram.